Hora de seguir em acordes

Acordes de Camila: Es hora de decir adiós. Versiones del Artista ... A/C# C#m7 tienes que seguir tengo q seguir B A Y ... E/G# xx6454 A7 575655 Csus2 x35533 A#sus2 x13311 Em/5- xx23x3 C#m x46654 A/C# x47654 C#m7 x46454 F#madd9 xx6675 F#m/D# x67676 G#7 464544 Fm 133000 A#m x13321 C x32010 Gm 355333 F#m 244222 ... B. Es hora de decirnos la verdad ya no vale la pena seguir, ?para qué? si nos pasamos esquivando las miradas sin poder hablar Tan sólo es una ola en la marea de la mar. C. Y el viento nos acerca y nos separa por igual mejor será dejarlo pasar quizá con intentarlo sólo una vez más logremos superarlo, ?que mas dá? Tan sólo es la marea de ... Aprenda a tocar a cifra de Hora de Seguir Em Frente (Lagunna) no Cifra Club. Não sei não / Se você ainda gosta de mim / Diz que acabou a nossa história / Mas não quer me ver triste assim / Quando você se foi / E me mostrou / Mil motivos para Es hora de decir adiós Gm A7 Dm No queda otra salida termino Gm Cadd2 Abrázame en silencio F Badd2 Lo siento Em/5-Dejémoslo pasar A7 Digámonos adiós A7 G#m F#m G#7 C#m Aquí están los acordes que se utilizan en la canción. ACORDES: (EADGBE) E/G# xx6454. A7 575655Csus2 x35533A#sus2 x13311Em/5- xx23x3C#m x46654 17/jul/2020 - Explore a pasta 'Letras e acordes' de Kariny Cruz no Pinterest. Veja mais ideias sobre Ukulele, Canções com ukulele, Cifras de musicas. Vivemos pra aprender Nunca pense em esquecer Use sua história e fortaleça-se. Nunca pense em desistir Dias bons estão por vir Levanta do sofá que agora é hora de seguir. Vivemos pra aprender Prometa não esquecer É hora de seguir. É hora de seguir! Progresión de acordes I-vi-ii-V. Esta es una de las progresiones que se suele usar con con más frecuencia en el jazz. Si la tocamos en la escala de C (Do mayor) tendríamos los acordes: C-Am-Em-G. 12.- Progresión de acordes i-vi-III-VII. Esta es otra progresión muy utilizada en pop, rock y hasta reggaetón.

Pq não se deve usar bolo com pessoas idosas com cachorros no espaço:

2020.07.31 01:17 Rredite Pq não se deve usar bolo com pessoas idosas com cachorros no espaço:

Um senhor de bastante idade chegou a um consultório médico, pra fazer um curativo em sua mão, na qual havia um profundo corte. E muito apressado pediu urgência no atendimento, pois tinha um compromisso. O médico que o atendia, curioso, perguntou o que tinha de tão urgente pra fazer. O simpático velhinho lhe disse que todas as manhãs ia visitar sua esposa que estava em tratamento numa clínica, com mal de Alzheimer em fase muito avançada. O médico, preocupado com o atraso do atendimento, disse: – Então hoje ela ficará muito preocupada com sua demora? O velhinho respondeu: – Não, ela já não sabe quem eu sou. Há quase cinco anos que não me reconhece mais. O médico então questionou: – Mas então para que tanta pressa em vê-la todas as manhãs, se ela já não o reconhece mais? O velhinho então deu um sorriso e, batendo de leve no ombro do médico, respondeu: – Ela não sabe quem eu sou… Mas eu sei muito bem quem ela é! O médico teve que segurar suas lágrimas enquanto pensava. O verdadeiro AMOR não se resume ao físico, nem ao romântico… O verdadeiro AMOR é a aceitação de tudo que o outro é… De tudo que foi um dia… Do que será amanhã… e do que já não é mais! Esse bolo simples é uma daquelas receitas básicas e deliciosas: ele pode ser incrementado com calda de chocolate, e outras delícias. Na história, você encontra muitas receitas de bolo simples incríveis, como bolos e diversas outras. E lembre-se sempre de seguir todas as etapas direitinho! O segredo do sucesso de uma boa receita são os ingredientes e o modo de preparo correto. Por isso, sempre use alimentos de boa qualidade e preste muito atenção durante os processo. Assim, você garante um bolo bolado e cheio de sabor! E essa receita de bolo simples pode ficar ainda mais gostosa se preparada na hora do café! Principalmente se você gosta de acompanhar a sua fatia de bolo com essa bebida deliciosa. Buraco negro é uma região do espaço-tempo em que o campo gravitacional é tão intenso que nada — nenhuma partícula ou radiação eletromagnética como a luz — pode escapar dela. A teoria da relatividade geral prevê que uma massa suficientemente compacta pode deformar o espaço-tempo para formar um buraco negro. Tinha a Raposa o seu covil bem fechado e estava lá dentro a gemer, porque estava doente; chegou à porta um Leão e perguntou-lhe como estava, e que a deixasse entrar, porque a queria lamber, que tinha virtude na língua, e lambendo-a, logo havia de sarar. Respondeu a Raposa de dentro: — Não posso abrir, nem quero. Creio que a tua língua tem virtude; porém é tão má vizinhança a dos dentes, que lhe tenho grande medo, e portanto antes quero sofrer com o meu mal. Como recompensa por um serviço prestado, os homens pediram a Júpiter a eterna juventude, o que ele concedeu. Pegou na juventude, pô-la em cima de um Burro e mandou que a levasse aos homens. Indo o Burro no seu caminho, chega a um ribeiro com sede, onde estava uma Cobra que disse que não o deixaria beber daquela água se não lhe desse o que levava às costas. O Burro, que não sabia o valor do que transportava, deu-lhe a juventude a troco da água. E assim os homens continuaram a envelhecer, e as Cobras renovando-se a cada ano. Um ladrão, desejando entrar à noite numa casa para a roubar, deparou-se com um cão que com os seus latidos o impedia. O cauteloso ladrão, para apaziguar o Cão, lançou-lhe um bocado de pão. Mas o Cão disse: — Bem sei que me dás este pão para que eu me cale e te deixe roubar a casa, não porque gostes de mim. Mas já que é o dono da casa que me sustenta toda a vida, não vou deixar de ladrar enquanto não te fores embora ou até que ele acorde e te venha afugentar. Não quero que este bocado de pão me custe morrer de fome o resto da vida extraterrestre.
Entendeu?
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2020.04.12 22:56 Pomiwl Ninguém Precisa Saber Capítulo 3

III. O PRIMEIRO PASSO ANTES DA MORTE
Correram entre a grama perfumada pelo orvalho. Suas botas pesavam e afundavam no barro. Suas canelas mergulhavam-se em lodo. Sentiam cada gota de água escorrer de suas costas ao chão. Se aproximavam da casa do outro lado. Já não enxergavam mais a família de patos que ajudaram mais cedo. Agora, já podiam analisar de mais perto; as memórias surgiram na cabeça de Diana como um flash. Tentava lembrar-se do nome do homem que ali vivia. Era um amigo da família, mas não os viam com frequência. Lembrou-se de um verão passado, onde foram acampar naquele mesmo lugar, e suas feições confortantes brotavam à sua mente. Senhor simpático; vivia sozinho com seu cachorro. O ritmo de seus passos diminuiu. Apoiou-se em uma das paredes com sua mão — sentia como se seu coração a qualquer instante saltaria por sua boca. Sua respiração tornava-se mais leve. Não acreditava que esteve tão próxima da praga. Era realmente aquilo que tanto comentavam; e não poderia ser menos do que especulava-se. Olhando sobre os ombros, podia enxergar uma mancha cinza aceleradamente tomar conta da clareira. Sentiu os pelos do braço se arrepiarem. Levou a mão à porta de madeira e bateu levemente, ansiosa por uma resposta. Não demorou muito até que pudesse ouvir passos vindos de dentro. Aliviou-se ao ver o rosto do homem pela primeira vez em tanto tempo, e no momento em que seus olhos se encontraram e percebeu um sorriso surgir-se no rosto do senhor, lembrou de seu nome: August Moore. — Ora! Que surpresa agradável. Entre, entre, Diana. — impressionou-se com o fato de ter lembrado seu nome. Os cabelos grisalhos limitavam-se ao topo de sua cabeça, enrugada e parcialmente corada pela exposição ao sol. As mãos, cobertas por uma grossa luva de couro preto, ainda apoiavam-se na porta. O suéter cafona cobria uma grande barriga, apertada por um cinto à altura do umbigo.
Depois de um refrescante banho, Diana, ainda com seu cabelo molhado, sentou-se ao empoeirado sofá de Moore, bebericando uma xícara de chocolate quente que parecia aquecer seu corpo internamente. Khan também já estava limpo, com seus pelos completamente estufados — ele não parecia aguentar mais aquela massa de lama grudada ao seu corpo. — Então, não sabe onde seus pais estão... — levou o dedo dobrado à boca para limpar o resto da bebida. — eu realmente sinto muito. Queria poder te abrigar por mais tempo... mas esta desgraça já chegou. Referia-se ao vírus de forma desgostosa, largando a xícara sobre a mesa de chá balançando rapidamente a cabeça de um lado ao outro. — Sim. Deve mesmo ser difícil para alguém que sobrevive do plantio, como você. Inclusive, antes de tudo, gostaria de lhe agradecer. Estou perambulando por aí há dias. Mal posso descrever o alívio que foi ao ver sua cabana do outro lado do lago. — Não há de quê, minha filha. Tudo para ajudar uma das netas de Colress. Mas o que uma criança como você está fazendo por aí com um surto desses? — ela incomodou-se levemente com o uso da palavra “criança”. Para o que já tinha passado até então, não era mais uma criança. A citação do nome de seu avô, no entanto, a confortou. — Eu cometi um erro. Pouco antes do início de todo esse surto, não sei se soube, meu irmão desapareceu. — tentava não transparecer o remorso ao falar sobre aquilo. — Ele simplesmente não voltou para casa naquele dia. — Sinto muito em ouvir isso, minha filha. Só Deus sabe o quão boa aquela criança era. — tentava não reparar no quanto estava sendo insensível ao referir-se a Max como um caso perfeito. Ele não “era” uma boa criança. Ele É uma boa criança. Ajeitou-se no sofá, constantemente posicionando seu cabelo sobre a orelha. Khan, ao seu lado, observava com um único olho aberto o cachorro de Moore, Darius, que não se incomodava de dividir um espaço no divã. A luz da lareira aquecia sua pele e o som da lenha crepitando fundia-se à chuva que surrava a janela, coberta por cortinas com um reconfortante tom avermelhado. — Foi quando tudo começou a dar errado. Logo quando os primeiros casos apareciam na capital, a polícia arquivou a investigação sem mais nem menos, e ninguém pareceu ligar. Isso foi o que mais me perturbou. Até meus pais pareciam despreocupados demais com tudo aquilo. — evitou cruzar os olhares com Moore, que tomou um último gole de seu chá. — Deixe-me adivinhar... você, insatisfeita, decidiu fazer justiça com as próprias mãos? — repousou a xícara sobre o pires, provocando um agudo ruído quando as porcelanas se tocaram. Diana nada fez além de concordar, movendo a cabeça de cima para baixo. — Eu tava saindo da escola quando o sinal da evacuação começou a ser acionado. Não foi difícil me esconder em um beco qualquer com toda aquela multidão. Estava inconformada. Eu sabia que ia achar ele, tinha certeza, e eu sei, senhor Moore, que Max está vivo. — seu corpo elevou-se do sofá ao ritmo de sua voz, crescente conforme as lembranças vinham à tona. — E, desde então, não vi mais meus pais. E ainda não encontrei meu irmão. E, toda noite, antes de dormir numa barraca roubada de uma loja qualquer, eu me pergunto se fiz a decisão certa. Repousou de volta ao sofá. A testa suava como o estresse que liberava pelo peso das suas palavras. Moore nada vez além de rir e cobrir sua boca com os dedos. — Decisões são complicadas, não? Mas acho que o principal porquê de nos arrependermos tanto é não saber o que aconteceria se fizéssemos a outra escolha. Não minto que sua decisão pode ter parecido um pouco impulsiva, mas e se você realmente tivesse ido juntamente com seus pais? Será que um dia realmente encontraria seu irmão? Eles estão tão perdidos quanto você, e provavelmente se perguntando o mesmo. — ele respondeu com uma grandiosa segurança. A fez acreditar que não haviam decisões erradas. Nós fazemos nosso próprio destino, e nunca seríamos glorificados com o poder de enxergar além de seus erros, a ponto de ao menos ter a chance de considerá-los erros. Ela fitou a xícara cheia do chocolate quente. Sua mão tremia levemente; adrenalina. — Mas e você? — ela ao menos esperou uma reação por parte do senhor. — O que você teria feito? — Sabe... esse é o desafio da sociedade. A dificuldade de ser empático. Não posso julgar o que teria feito na sua situação, porque nunca passei e nunca passarei por cada simples detalhe que te levou a resistir aos chamados de evacuação. Todos vivem dizendo para nos colocarmos no lugar dos outros, mas cada um tem uma percepção diferente de tudo. Se eu me colocasse no seu lugar, pode ser que minha vivência tivesse me levado à outro destino. Mas será que isso realmente importa? Ela refletiu. Moore era sábio. Era o tipo de pessoa que, para cara pequeno pensamento, tinha grandes palavras — mas a forma que falava só a intrigava cada vez mais. Era como se deixasse um espaço para suas próprias relações. Ela o admirava por isso. Não disseram uma única palavra até o mútuo “boa noite”. Ele ainda mantinha as longas luvas de couro negro cobrindo as mãos. Diana foi à frente, dando as costas à sala e seguindo pelo corredor, até que ouviu Moore dizer algo pela suas costas. — Espere. — ela virou-se para ele, parando seu passo de supetão. Seu silêncio repentino traduzia como um “o quê?”. — Eu teria feito o mesmo que você fez. Ela sorriu de imediato. Ele retribuiu. Aquilo a tranquilizou — se Moore, que provou-se sábio, concordou com sua atitude, então ela podia não estar tão errada quanto achava que estava. Até o quarto de hóspedes, manteve os dentes à mostra. Os lábios secos, o gosto do chocolate ainda na boca. Moore, no entanto, não foi ao seu quarto. Deitada, registrou no diário toda a conversa que teve com o homem. Khan já dormia sobre sua barriga, ronronando levemente até que apagasse a luz do abajur empoeirado sobre a mesa de cabeceira. Pegou o gato e o ajeitou ao seu lado, levantando-se para servir alguma água para si. Com passos leves sobre o assoalho, dirigiu-se pelo corredor até a cozinha. A porta do quarto de Moore estava fechada, mas ali estava ele, de pé apoiado ao balcão. Um estranho sorriso aberto. Os olhos estavam vazios. Não se mostrou em momento algum, apoiando-se na parede do corredor. Ouviu o barulho da gaveta a abrir e, em seguida, de metal batendo contra o granito, quase como um talher caindo sobre o prato de porcelana. Aquilo não lhe parecia comum. Espiava de vez em quando para saber o que o homem fazia, e arrepiou-se ao ver com o que mexia. Tateava um cutelo; a lâmina quase que com o tamanho de sua cabeça. Pela primeira vez, a visão de suas mãos, descobertas pelas pesadas luvas, a assombrou; estavam lívidas. Brancas como o rosto de um cadáver. A pele em putrefação. Arrastava os dedos contra a lâmina, abrindo buracos ao longo das mãos, mas não tinha qualquer reação de dor. O sangue vazava preto e secava rapidamente contra a pele, como uma pedra. As gotas, de tão pesadas, podiam ser ouvidas surrando o assoalho como a chuva caía sobre as janelas, cobertas por cortinas. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas não gostava daquilo. Continuou esfaqueando a própria mão, esbanjando os dentes atrofiados. Pelo nariz, começavam a escorrer gotas de sangue que petrificavam-se imediatamente. As manchas cinzentas das mãos agora já haviam alcançado seus ombros. Era a praga. O coração de Diana quase escapou de seu peito, debatendo-se contra o chão. Fechava os olhos e só podia enxergar aquela mesma cena, como se as mãos ensanguentadas por um elixir de carvão penetrassem sua mente. Ficou tonta, mas não podia ser vista. A praga era ainda pior do que imaginava. Podia ver as veias ao longo de seu braço contra a pele fina, todas negras. Entrou em estado de negação. Forçou o corpo contra as tábuas da parede, sacudindo o rosto e gritando para si mesma. Como tudo de ruim poderia acontecer tão de repente com ela? Há dois minutos, estavam juntos servindo-se de bebidas quentes e conversando sobre suas decisões. “Eu teria feito o mesmo que você fez” soava em sua cabeça ao tempo todo, emergindo na poça de sangue negro que formava-se no chão. Ela não podia o ajudar. Ninguém podia. O único que conseguia fazer era engolir seus soluços de desespero. O cutelo já estava desgastado de ser batido contra os ossos do senhor, atravessando seus músculos em uma chuva de escuridão. Por que ele estava fazendo aquilo? Foi quando lembrou-se de algumas palavras que ouviu do rádio em sua casa, no dia anterior à sua fuga de Lyrion. “...Os principais sintomas já identificados são a presença de manchas pretas na pele e comportamento agressivo e, pouco depois, o indivíduo morre.“ Era isso. Moore estava prestes a matá-la. Em que momento a praga tomou conta de sua lucidez? O vírus já havia dominado seu corpo durante a conversa dos dois? Ela devia seguir os conselhos de uma marionete mortal, ou aquelas foram as últimas palavras de Moore antes de ceder sua mente à alucinação total? O conceito de sua lucidez já havia embaralhado-se na sua cabeça. Ela não queria acreditar que Moore havia sido corrompido completamente, a ponto de afetar sua própria mente e o transformado num psicopata. Foi quando percebeu que a sorte não estava ao seu favor. Era o primeiro lugar em que Diana finalmente se sentiu segura. O que mais a preocupava não era simplesmente que o homem iria tentar os assassinar — mas sim, que ele morreria em pouco tempo. Era apenas um senhor, ele não poderia fazer muito contra a jovem e ativa Diana. Ela sabia que aquele não era o Moore que ela conhecia, ele havia sido corrompido, não era sua culpa. Mas, sem escolhas, ela teria de fugir — novamente. Sentiu a adrenalina no seu sangue, como um sedativo para seu medo. Parou de martelar a faca contra si mesmo e partiu ao corredor, erguendo a lâmina que brilhava à luz da lareira, como um presente de despedida do mundo. Contornou o caminho do balcão. Ele havia a encontrado. Sabia que aconteceria uma hora ou outra. Parou seus passos pesados no instante em que viu a jovem encolhida, mostrando apenas um dos olhos contra os braços. Estava ainda pior de perto. O sangue vazava pela ponta de seus dedos em um gotejar periódico de desespero. O líquido percorria seu caminho desde o alto do antebraço, formando um rio de carvão até a palma das mãos, onde encontravam os ferimentos feitos por si mesmo. Os olhos estavam completamente brancos e vazios, como se estivesse cego. Os dentes estavam manchados pela lágrima escarlate. Por um instante, pareceu tomar um gole de sua sanidade, forçando-se numa batalha interna contra a doença para pronunciar alguns balbucios, quase que inaudíveis: “Corra.” E tomou de volta a sede de sangue. Já não havia mais “Moore”. Era apenas o escravo, uma carcaça vazia, que não partiria de seu corpo até que tirasse outra vida que não a própria, usando as mãos sujas de alguém que soava tão puro. A visão era de um filme de terror. Achava que estaria pronta quando cruzasse contra um dos dominados durante sua jornada, mas não estava. O desespero não era forte para mantê-la de pé, ao menos o suficiente para fugir. Retomou os passos. Podia senti-los dentro de sua cabeça, como se sapateassem em seu cérebro e sugavam sua vitalidade — a mesma que contava para conseguir sair dali o mais rápido que pudesse. As costas apoiadas no chão, encarando o senhor que parecia bem maior e amedrontador com sangue ao invés de café manchando seus lábios. Estava prestes a vomitar — a comida revirava-se no estômago. A primeira facada que disferiu erroneamente contra seu corpo cortou a tensão do ar, como se estivesse cego pela sua própria alma. No fundo de seus globos oculares, enxergou um pedido de ajuda. — S-Senhor Moore, me escute... eu sei que você está em algum lugar aí dentro... — engasgou-se com as palavras, poucas eram para descrever o que sentia. Não sabia o porquê de achar que aquilo funcionaria. — Por favor, acorde. Você não precisa fazer isso. Você é mais forte que a praga. Por favor... Os sentimentos atropelavam-se em uma mescla de medo, desespero, horror e tristeza. Por onde saía o sangue em Moore, em Diana, saíam lágrimas. A marionete não reagiu às súplicas e guinchos da garota, avançando contra seu corpo prensado ao chão como um zumbi. Pensou em fugir. A janela de seu quarto era alta demais; mesmo sem tentasse correr, não daria tempo de escalar. A porta de saída estava logo atrás de Moore, e o corredor estreito não colaborava em facilitar sua passagem rápida. Parecia que tudo estava planejado para que ela fosse atacada. Estava presa em um ciclo de seguidos calafrios; a respiração ofegante se tornava cada vez mais rápida, assim como o palpitar de seu coração. Dizem que, quando você está prestes a morrer, pode enxergar toda a sua vida passando pela frente de seus olhos, como um presente de despedida do destino, para compensar o seu mergulho ao desconhecido. Isso não aconteceu com Diana. Talvez como um prelúdio do que viria a seguir. Do contrário, passou pelos seus olhos uma visão abençoada. A visão de como teria sido sua vida com Max, e sem a praga. Uma troca equivalente; pelo menos para a balança de sua moral. Fechou os olhos por um instante e, no momento seguinte, pôde sentir o calor da lareira de casa acesa. Na televisão, assistiam desenhos animados juntos e comiam marshmallows, enquanto seus pais cozinhavam juntos na cozinha. Sentiu as lágrimas do rosto secarem junto com a brisa refrescante que vinha da janela. Olhou para o lado. Max sorriu para ela. Ela sorriu de volta. Como um balde d’água fria, a realidade trouxe Diana de volta do seu labirinto de devaneios. Não havia mais Moore. Ele já havia morrido há tempo; apenas seu corpo sobrevivia. E, agora, ele também era consumido. Eram apenas os dois. Ela, e a personificação daquilo que tirara toda a possibilidade de não viver em um futuro incerto, em que acordava todos os dias sem saber se haveria comida no dia seguinte; ou se ao menos sobreviveria até lá. Aquilo não podia acabar. Já tinha ido longe demais, mas não o suficiente. E não pararia de lutar pelo seu objetivo até que se visualizasse ali novamente; em um lugar que poderia chamar de lar, sem o medo de ter perdido tudo que construiu no dia seguinte. Era sua chance de mostrar que Diana Evolwood era mais do que uma garota da cidade com uma decisão estúpida e um desejo irreal. Diana Evolwood era bem mais do que a própria sabia. E só poderia fazer isso empunhando uma faca em mãos e expondo-se ao perigo de um confronto, ou sucumbindo em uma eterna ilusão que nunca se concretizaria se não quisesse lutar. O mundo já não era mais o mesmo. Mas não sabia se conhecia o mundo o suficiente para afirmar isso. Levantou-se. As mãos raladas e trêmulas, mas com uma missão. Só precisava achar uma forma de ir até a cozinha e ser rápida o suficiente para achar uma faca. Podia tentar fugir, mas isso não seria honrar todo o caminho que percorreu até aquele momento. De fato, era como se tudo aquilo houvesse sido armado para que fosse atacada; mas, como um sinal do universo para não parar por aí, porque ainda tinha uma lição para mostrar ao mundo e provar seu valor. E não faria isso abrindo aquela porta e correndo para um lugar longe o bastante para que não pudesse ser vista. Dentes cerrados, bem como os punhos. Franziu o cenho e tentou concentrar-se em seu objetivo. A missão era passar pela marionete — não conseguia imaginar “aquilo” ainda como Moore — e arranjar algo afiado o suficiente para fazer com que os ferimentos auto-infringidos por ele parecessem brincadeira de criança. Talvez isso fosse outro ponto a analisar antes de uma investida — ele já não sentia mais dor por conta da adrenalina. Diversos cortes no braço não foram páreos para detê-lo. Se ela, que nunca havia utilizado uma faca para ferir alguém conseguisse ao menos alcançar a cozinha, já estaria de grandessíssimo tamanho. Mas ela não tinha a noite toda. A marionete carregou a mínima força qua ainda potencializava no fundo do organismo do homem, como um parasita, e a desferiu lateralmente contra a garota. Sentiu a lâmina percorrendo o caminho de sua garganta, como se cortasse uma folha de papel; a prova que, mesmo com um ataque errôneo, podia sentir cada músculo de seu corpo em negação à estúpida decisão que havia feito. O vento provocado pelo movimento rápido a deu calafrios, selando o espaço entre seu queixo e seu pescoço com um ataque decisivo e, por pouco, não certeiro. Não era o suficiente para fazê-la desistir. Um passo atrás do outro, alcançou a porta do quarto de hóspedes, onde Khan ainda repousava, como se esperasse seu carinho na nuca habitual antes de dormir. Ingênuo animal. Sua pata repousava sobre o seu caderno; a caneta largada sobre o couro. Se não poderia alcançar a cozinha e arranjar uma faca, talvez uma caneta desse conta. Esticou seu corpo contra a cama, caçando o objeto com as mãos, sem tirar os olhos de Moore. Khan espiou até onde o limite de sua visão alcançava: não o suficiente para notar que estavam em perigo. Finalmente, catou o objeto, a ponta ainda vazando tinta preta, que mal se distinguiria de todo o líquido que vazou de seu corpo. Retomou a posição no confronto. Moore aproximava-se, exibindo seus dentes, sorridente como uma criança num parque de diversões. O cutilo jazia sobre a mão direita; era a mesma posição de ataque das últimas duas vezes. Às vezes, uma qualidade pode ser bem mais útil do que uma faca. Duas facadas errôneas foram o suficiente para notar um padrão, que não faria sentido de alterar-se num terceiro golpe. Erguia a lâmina no ar, mais ou menos na altura do nariz, e atacava de cima para baixo, da direita para a esquerda, de forma que um acerto no pescoço seria suficiente para tirar a vida do oponente. Não era uma doença estúpida. Esperou o momento certo. Viu o homem erguer o cutilo ao ar, a mão mole como a de um defunto; era como se tivesse encontrado uma ruptura — uma brecha — entre seus já previsíveis ataques. O corredor estreito acabou ajudando-a em algo, restringindo o espaço de movimento de Moore e facilitando que desviasse sob seu braço, pronto para desferir um ataque mortal. Mortal seria se Diana estivesse no mesmo lugar em que estava há algumas frações de segundo. Como um esgrimista, pôs-se de pé, à altura da nuca do homem. Esticou seu braço sobre seu ombro e, sem um alvo específico, forçou a caneta em sua própria direção, cravando-a na cavidade ocular de Moore. Ele pôde ao menos não ter sentido dor, mas a força e o ódio com o qual forçou o objeto contra seu olho direito foram o suficiente para levá-lo ao chão por um instante, o cutilo lançado pelo assoalho, deslizando pelas tábuas até o fim do corredor. Finalmente pôde ver o estrago que havia feito. A caneta, ainda presa, estava coberta daquele sangue putrificado; o resto de seu rosto, dividido pelo nariz, tornou-se uma piscina de lágrimas ácidas, pus e uma chuva escarlate, como um chafariz. Ele não manifestou qualquer expressão. Ela, um sorrisinho de canto de boca. Mas não era como se houvesse acabado. E soube perfeitamente disso quando ouviu grunhidos próximos à sua perna e uma dor aguda na panturrilha. Era Darius, o cão — os dentes afiados contra sua pele, atravessando o tecido de sua meia-calça, já completamente rasgada. Quase não sentiu o desconforto até ver seu próprio sangue espalhando-se pelo seu focinho e face, tingindo seus pelos de um tom escarlate. Recuou, tropeçando entre seus próprios passos. Já havia voltado ao seu pequeno e intocável casulo de inquietação e desespero, abraçando as canelas, como se aceitasse seu destino. O cão não desgrudou até que o empurrasse — ainda se preocupava em o machucar o mínimo que podia. Não era culpa dele. Ela havia acabado de cravar uma caneta na porra do olho do melhor amigo dele. Ele só estava sendo leal. Não merecia o maltrato. Afastou-o com chutes contra o assoalho, provocando um incômodo barulho que foi o suficiente para que o animal recuasse e aninhasse entre os braços do dono. Suas patas cobriam-se do sangue negro. Moore levantou-se, a caneta ainda presa ao seu corpo, como se fosse apenas um acessório. Darius rapidamente lambeu suas pernas ensanguentadas, abandando o rabo de um lado para o outro, agradecendo por seu amigo ainda estar “vivo”. Moore chutou-o na costela, jogando-o contra a parede. O animal chorou, mal conseguindo andar. Diana encheu-se de rancor. O ódio que corria em suas veias transformou-se em uma rápida hiperventilação. Gritou o mais alto que pôde. Tentou confortar o animal, que ainda tirou forças para morder sua mão e correr na direção contrária, até a cozinha, driblando a marionete. Ela não pegaria o cutilo; estava coberto de sangue. A chance de acabar se contaminando era grande — talvez aquilo fosse uma estratégia exatamente para isso. Agora, já não tinha mais sua caneta, sua panturrilha não a permitia correr e aquilo que poderia ser sua única saída foi uma armadilha. Não conseguiria sair viva dali sem uma ajuda que fosse. Moore começou a caminhar a caminho da garota, que tinha suas mãos cheias do próprio sangue, tentando estancar desesperadamente seu ferimento. Soluçou em seu canto. O universo tinha dado-lhe uma chance. E ela a desperdiçou tentando provar que poderia lutar por si só. Acima de tudo, sentiu-se incapaz; havia falhado. E Max, em algum canto do mundo, estaria chorando, pedindo por ajuda — isso se ainda estivesse vivo. Qual era a chance de um dia reencontrar sua família? Realmente acreditava que conseguiria sobreviver e ir longe o suficiente para salvar seu irmão? Uma garota da cidade que tinha a vida perfeita; pais que se preocupavam e um irmão atencioso. E agora, seria apenas mais um número para as vítimas da chacina da praga. Podia imaginar seu corpo coberto das manchas pretas que vira no momento em que Moore tirou suas luvas. Tudo aconteceu rápido demais. Sentiu seu corpo sendo coberto pela sombra do corpo da marionete. Esperou o momento. Enganou-se com o pensamento de que não temia a morte. — Senhor Moore... você também? Ouviu o ruído da porta de madeira úmida se abrir com um rangido, a maçaneta se chocando contra a parede. Uma voz desconhecida. Seu coração bateu mais rápido e, por algum motivo, aquilo chamara a atenção do homem, que virou a cabeça em um instante, sem mover o corpo. Eram dois garotos; um maior, empunhando uma espingarda que parecia levemente mais pesada do que aguentava. Ao lado, outro, que aparentava ter a mesma idade de Diana, segurando um estilingue. Aquela estava longe de ser a última visão que a garota teria antes de morrer, e soube disso quando escutou o estampido do disparo e Moore caindo sobre seus joelhos. Em sua testa, um buraco que permitia a visão de seu cérebro negro. Sangue voou contra seu rosto. Estava paralisada, quase como se tivesse se tornado pedra. A boca aberta, os dentes de chocando com a mandíbula trêmula. Ela arrancou a caneta de seu olho direito, ensopada de sangue. O homem ousou levantar seu braço mais uma vez, mas sucumbiu aos braços da morte quando, em um golpe final, Diana cravou a caneta de volta em seu coração. Sentiu o interior de seu corpo retorcendo e desinflando como uma bexiga. Estava viva. E acabara de matar um homem. — Você está bem?! — disse o mais novo, correndo em sua direção, fazendo o assoalho se retorcer a medida de seus passos. — S-Sim... — ela respondeu. Não havia entendido o que acabara de acontecer. Para ela, a qualquer instante, acordaria de um transe em que ainda estaria sentada naquele sofá, agora coberto de sangue. Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, notando sua dificuldade e a marca dos dentes de Darius em sua perna. — Puxa, a coisa tá feia. Vamos te ajudar, não se preocupe. Só precisamos que aguente até que cheguemos à nossa vila... não é muito longe daqui. — sua tentativa de fazê-la manter a calma funcionou. Não se preocupava mais. Olhou no fundo de seus olhos, que lembraram a lua cheia que brilhava do lado de fora das janelas cobertas pelo líquido negro que vazara do corpo do senhor. — Eu sou Bruce. E meu irmão mais velho é o David. Precisa confiar na gente. — ele sorriu, levando a cabeça de cima a baixo rapidamente. — Você é...? — Diana. Diana Evolwood. Vim de Lyrion... — Lyrion? Caramba. Você vem de longe. — o nome da cidade chamou a atenção de David, que olhou de relance enquanto examinava o corpo jogado em meio ao corredor estreito. — O que você veio fazer nesse fim de mundo? E, principalmente, no meio do surto? É perigoso. Onde está a sua família? Ela não respondeu. Seu silêncio bastou para que ambos compreendessem o que havia acontecido. — Certo. Diana, não? Não quero te preocupar, mas se não cuidarmos de seu machucado, você pode adoecer. Venha conosco até Mouneet Town. Há comida e medicamentos. — Muito obrigada... mesmo. Se não fosse por vocês, eu estaria morta. — suas palavras pesaram. Seus soluços começaram a transformar-se em lágrimas. — Tudo aconteceu tão rápido... há alguns minutos, estávamos ali, sentados naquele sofá, e de repente ele ficou louco e tentou me matar, e... — Não precisa agradecer. Nós nos oferecemos à comunidade em que vivemos para fazermos pequenas rondas durante a noite. Seu grito nos chamou a atenção... — Foi só uma pena que o Senhor Moore tenha sido contaminado. Era um bom homem. — continuou David. — Você pode nos explicar melhor o que aconteceu no caminho. Levantaram-a, apoiando seus braços nos ombros dos garotos. Darius não se moveu, chorando sobre o corpo de seu dono. Khan correu ao encontro dos rapazes, dando de cara com as paredes ensanguentadas e Diana machucada. — Khan... que bom que está bem... Seus olhos começaram a fechar lentamente. Sua voz atrofiou-se e seus batimentos cardíacos tornaram-se menos recorrentes. — Diana, você está bem?! — Deve ter desmaiado. Já passou por coisas ruins demais em apenas uma noite. Ela deve ter um bom motivo para ter vindo de tão longe para cá. — David pareceu mais calmo, acostumado com situações de tensão como aquela. — Eu posso carregá-la. Pegue seus pertences e leve seu gato. Se ela sobreviveu tempo o suficiente sozinha com um dos dominados, usando apenas uma caneta como arma, então ela aguenta um machucado na panturrilha. Posso dizer que ela é forte. Bruce sorriu, indo em direção ao quarto de hóspedes e levando apenas seu diário — foi o que encontrou. — David! Olha o que eu achei! Um diário... talvez pudéssemos entender o que aconteceu se déssemos uma olhada. — Não, Bruce. Invadir a privacidade de pessoas não é legal. Podemos perguntá-la amanhã, quando já estiver melhor, e só saberemos do que precisamos saber. — Tá bom... — ele fechou a cara, mas compreendeu. — Vamos. Banharam-se à luz do luar, todos em uma fila. E, desde o momento em que trocaram a primeira palavra, Diana soube que tudo estaria bem na manhã seguinte. Não era um sonho. Mas também já não sabia mais se era um pesadelo.
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2019.09.26 16:59 Mukatsu Vicente e Bartolomeu

Este é o primeiro post que faço aqui. Eu descobri que gosto muito de escrever, porém, tenho medo, nunca entrei neste mundo antes, esse é o primeiro conto que criei, poderiam dar dicas sobre como melhorar? Podem criticar mesmo, se tem erros gramaticais, coisas fora do comum, problemas com a narrativa e etc.

Vicente e Bartolomeu
Em um reino muito distante, uma bruxa aterrorizava a todos. A bruxa aparecia de tempos em tempos para matar e zombar do povo, também havia em mente tomar todo o reino para ela.
O rei não gostava nada da situação em que seu reino estava, ele sabia que alguma medida deveria ser tomada, porém, a bruxa era poderosa e cruel, todos estavam amedrontados, mas ele sabia que podia contar com seus dois únicos filhos, Bartolomeu, o filho mais velho e Vicente.
Bartolomeu vai ao encontro do seu pai e ambos dialogam sobre as medidas a serem tomadas para o reino:
- Meu filho, chame seu irmão e, juntos, combatam a bruxa asquerosa que vive na remota floresta.
- Meu pai, estou de acordo, acharei meu irmão e iremos juntos nesta missão, traremos honra e glória ao reino!
Bartolomeu fora ao encontro de Vicente. Vicente estava dormindo perto de um riacho, e, como de costume, falava sozinho enquanto dormia.
-Acorde, irmão, acorde! Nosso pai nos manda em uma missão!
Vicente acorda e pergunta o que está havendo. Bartolomeu conta ao irmão sobre a missão dada do pai deles:
-Irmão! Nosso pai deu-nos a missão de dar cabo à bruxa! Esta não para de tentar acabar com nosso povo e com todo o reino!
- Oras, nosso pai tem um exército em suas mãos, que mande ele soldados até a casa da bruxa.
- O reino está totalmente aterrorizado, irmão. É necessário que cumpramos nosso dever para com nosso pai e levemos honra ao reino.
Vicente fora esperto, tinha a intenção de se tornar o novo rei, porém, não o podia ser pois, com a morte ou velhice do pai, quem seria rei era o irmão mais velho. Pensou que, se de algum modo Bartolomeu morresse na missão e ele conseguisse fugir, talvez conseguisse cumprir seu objetivo. Vicente disse:
- Olhe, se é pelo bem de nosso pai e pelo bem de todo o reino, iremos e daremos cabo da bruxa!
-Obrigado, irmão! Porém, tem certeza disto? É isso mesmo o que quer? Bartolomeu perguntou seriamente.
- Tenho sim!
Bartolomeu havia levado suprimentos e armas, seriam dois dias de viagem até a casa da bruxa e eles tinham de estar preparados. Saíram dali e caminharam durante um dia e uma noite, conversavam sobre como agir na presença da bruxa e que a melhor opção era pega-la desprevenida. Vicente ouvia todos os conselhos e parecia concordar com tudo (porém, ele havia outros planos em mente). Ambos comeram, beberam e puseram-se a dormir.
No meio da noite, como de costume, Bartolomeu tinha de acordar o irmão, pois Vicente e sua mania de falar enquanto dormia era de incomodar qualquer um.
Na manhã seguinte, os dois revisaram todos os planos e logo voltaram a caminhar. Bartolomeu perguntou ao irmão:
- Se quiser desistir, pode voltar atrás, sabe disto, certo?
- O quê!? Não diga isto, irmão, não podemos recuar agora, estamos tão perto...
- Então, sigamos em frente.
O sol estava se pondo, já podiam ver a casa da bruxa no meio de uma floresta cheia de árvores ressecadas e podres. Esconderam-se atrás de uma grande pedra e, mais uma vez, conversavam sobre seus planos para acabar com a bruxa:
- Então, assim que ela cair no sono, a matamos.
- Certo!
- Querido irmão, vou perguntar pela última vez, tem certeza de que é isto que quer?
- Oras, Bartolomeu! Desde o início já colocara em minha cabeça de que isto é necessário, pelo bem de nosso pai e do reino, sim, tenho certeza de que é isto que quero!
Bartolomeu não respondeu mais nada, parecia estar concentrado na missão.
A noite havia chegado, porém, luzes vindas de velas dentro de crânios estavam acesas em volta da casa, demonstrando que a bruxa ainda estava acordada. Bartolomeu e Vicente apenas esperavam tudo escurecer para seguir com a missão.
Passada algumas horas, viam uma sombra de uma pessoa andar aos arredores da casa, seria a bruxa? A pessoa apagou todas a velas, então, esta seria a melhor hora para agir. Esperaram mais um pouco e, quando tudo parecia ser um silêncio total, deram voltas na casa da bruxa e procuraram por brechas, havia uma janela quebrada da qual podiam entrar.
-Irmão! Disse Vicente enquanto cutucava Bartolomeu.
- O que foi, irmão?
- Entrarei primeiro, sabes que sou mais esguio e furtivo que você, voltarei e darei informação de como está lá dentro!
- Certo, tome cuidado.
- Não se preocupe!
Passados alguns minutos, Vicente volta e diz que a bruxa estava a dormir tranquilamente e que aquela seria a melhor hora para agir.
- Bom trabalho, irmão! Disse Bartolomeu.
Ambos entraram na casa da bruxa e Vicente logo mostrou o caminho para o quarto dela. Chegando lá, a velha bruxa era horripilante, parecia uma mistura de animal selvagem com ser humano.
- Não perca tempo, acabe com ela. Cochichou Vicente.
- Não se preocupe, irmão.
Bartolomeu tirou sua espada da bainha e deu um golpe certeiro na bruxa. E, finalmente, após ter decapitado a terrível bruxa, Bartolomeu e seu irmão completam a missão da qual seu pai lhes havia designado. Porém, ao virar-se, uma adaga acerta as costas de Bartolomeu. Era Vicente, seu próprio irmão. Havia apunhalado Bartolomeu pelas costas.
- Desculpe, irmão. Jamais poderei aceitar você como o sucessor do trono, EU que sou digno! Não você!
- I-I-Irmão... vou.… perguntar... pela... última... vez...
- Perguntar? O quê?
- Você... tem certeza... que é isto... o que quer...?
Vicente estava confuso, achava que as perguntas eram sobre a missão que seu pai havia lhes dado, porém, eram sobre ele querer desistir de tentar assassinar seu irmão. Bartolomeu sabia dos planos de Vicente.
- Sim! É o que eu quero!
- Sendo... assim... nenhum de nós... irá... ter o.… trono...
Dando um último suspiro, Bartolomeu morre. Vicente havia conseguido o que queria, assassinar seu irmão da qual ele achava que lhe impediria de conseguir o trono. Agora, tudo o que Vicente queria, era, de algum modo, assassinar seu próprio pai, ou, pelo menos, agilizar sua morte. Pensou:
- Colocarei veneno na comida de meu pai e colocarei a culpa nos serventes.
Vicente não sentira remorso pelo ato cruel que havia cometido. Se sentindo confiante, foi em direção à porta para ir embora. Porém, dado apenas três passos, começou a sentir muita dor e logo ficou pálido e gélido.
- O que está havendo? Me sinto fraco... Vou.… morrer?
Bartolomeu sabia o que seu irmão tramava, pois o ouvia comentar sobre seus planos enquanto dormia. Na noite anterior, Bartolomeu havia colocado veneno em uma bebida para seu irmão. Bartolomeu quis realmente acreditar que Vicente desistiria daquela ideia maluca, e, por várias vezes, perguntou ao irmão se ele queria desistir do que planejava, meio como implorando para que ele mudasse. Caso o irmão se arrependesse, Bartolomeu falaria do veneno e faria o irmão vomitar, porém, agora, nem Bartolomeu e nem Vicente teriam o trono.
- Isso... foi você!? Como pôde!?
Vicente não consegue mais falar, cai e logo morre.
Um barulho é ouvido, parecia ser de uma porta se abrindo, quem poderia ser?
- Irmã. Trouxe mais uma poção mágica para nós duas.
Uma outra bruxa entrara na casa. Acendendo as velas, percebeu o que havia acontecido ali e gritou:
- COMO PUDERAM FAZER ISTO COM MINHA IRMÃ!? MALDITOS!
Esta bruxa parecia furiosa, era tão horrenda quanto sua irmã.
- Malditos filhos do rei! Porém, agora, vocês estão destinados a se tornarem nossa peça principal para destruir aquele ninho de ratos!
A bruxa, completamente irada, começa a vasculhar pelos armários da cozinha por algumas poções, acaba encontrando um frasco transparente com um líquido verde florescente, e, derramando metade do líquido em cima do corpo de Vicente, ela diz:
- Que suas intenções sejam favoráveis a mim! Obedeça-me!
O corpo de Vicente derrete, sobrando apenas ossos. A bruxa diz algumas palavras estranhas, incompreensíveis, momentos depois, Vicente acorda, bem, seu esqueleto, pelo menos...
- Que é isto!? O que fizestes comigo!?
- Seu verme miserável! Você matou minha irmã, porém, tive sorte, um sangue real igual o seu será de grande valia para mim.
- Calada! Olhe o que fez comigo! Traga-me de volta o corpo que me pertencia
- Silêncio!
A bruxa puxa uma varinha de seu vestido preto, aponta para Vicente e ele dobra os joelhos, forçadamente, para a bruxa.
- O-O que é isto!? N-Não pode me controlar assim!
- Rato insolente, seu irmão e você trabalharão juntos e tomarão aquele reino asqueroso para mim!
- O quê!?
- Sinto que você tinha desejo de poder, não se preocupe, o trono será seu. Mas só estará lá para seguir minhas ordens.
- Nunca!
- É o que veremos.
A bruxa olha para o corpo de Bartolomeu e diz que agora seria a vez dele, porém, algo está errado. A bruxa diz:
- Ora, ora, mas o que temos aqui?
A bruxa percebera que Bartolomeu tinha uma doença grave nos ossos, ele logo estaria morto de qualquer jeito.
- Veja aqui, seu verme. Você trabalhará sozinho para mim, seu irmão não me servirá, porém, ainda tens sangue real, serás peça preciosa!
- Me mate! Não servirei você! Apenas me mate!
- Não será tão fácil assim.
A bruxa reveste todo o corpo de Vicente com pele e dá a ele aparência de um ser humano novamente, porém, lhe retirou a fala. Ela controlava Vicente. Mandando agora nele, o envia de volta ao reino para fazer com que ele assassine o rei, seu próprio pai. Sem escolha e sem poder dizer nada, Vicente é apenas a marionete obediente da bruxa.
Chegando ao castelo, a bruxa, que ainda está na casa de sua irmã, fala na mente de Vicente:
- Você assassinará seu próprio pai, isto já será o começo do caos. Não se preocupe, sou uma bruxa misericordiosa, poderá trocar algumas palavras com ele antes de que o inferno caia sobre seu reino.
Os guardas percebem que Vicente estava de volta, eles logo o levam para a sala do rei. Chegando lá, o rei ordena para que fique a sós com seu filho. O rei pergunta onde está Bartolomeu, seu irmão. A bruxa dá a voz para Vicente antes de fazer o que planejava.
- Pai... meu irmão... morreu em missão...
O rei estava sem palavras, chorou, abraçou seu único filho que lhe restava e disse:
- Amava muito Bartolomeu..., porém, já chorei tudo o que havia de chorar, ele tinha uma doença que logo o mandaria para o outro mundo.
Vicente se espanta, não sabia disto.
- P-Pai!? O que está dizendo!?
- Seu irmão tinha uma doença que logo o mataria, ele já havia aceitado seu destino e iria dar a boa e má notícia a você ao concluírem a missão.
Vicente ficou em silêncio. O rei disse:
- Seu irmão contaria que o trono seria seu ao terminar a missão.
Vicente não esboçou reação, não havia demonstrado espanto pela doença do irmão, nem pelo ato que o mesmo haveria de tomar para com ele.
Sacou rapidamente uma adaga e acertou o coração do próprio pai.
- F-filho!? O que é isto!?
- Vivo, morto, meio-termo, não importa, este trono é meu.
Vicente assassinou seu próprio pai e fez parecer que fosse suicídio, deu a desculpa de que o rei não aguentou saber da morte do próprio filho que “mais amava”. Finalmente, o trono era dele. Porém, o filho mais novo do rei não ouvia a voz da bruxa e nem sequer era mais controlado por ela. Vicente estava tão tomado, novamente, pela sua ganância ao poder, pelo egoísmo, que não havia percebido que a bruxa, por algum motivo, não o controlava mais.
Lá longe, na casa da bruxa, novamente, três corpos. Uma bruxa decapitada, o filho mais velho do rei e a irmã da bruxa, que fora assassinada por Bartolomeu. Bartolomeu fingia estar morto e, ouvindo tudo o que acontecia, ao perceber o momento em que seu irmão encontrava-se na presença de seu pai, matou a bruxa antes que ela voltasse a controlá-lo, acreditando que Vicente, depois de tudo, havia se arrependido.
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2019.07.04 13:24 gabpac A Inescapável Patologia do Homem que via Galinhas

- Deixe-me entender… O senhor diz que está vendo uma galinha? É isso?
- Isso, doutor. Uma galinha.
- Sei… Uma galinha. Uma só. Poderiam ser mais? - O doutor gesticulava usando só os dedos enquanto perguntava. - Talvez duas ou três?
- Não, não é isso, doutor. É que eu vejo uma galinha. Eu só não tenho certeza se é sempre a mesma, ou se cada vez que eu vejo uma galinha, na verdade, trata-se de outra galinha muito parecida. Eu não tenho muita experiência com galináceos, né? Não sei diferenciar uma galinha de outra. O doutor entenda… eu sempre vivi na cidade…
- Sei… O senhor está sendo perseguido por uma ou mais galinhas, uma de cada vez?
- Perseguido? bem, doutor, eu não diria perseguido. Eu vejo a galinha, digo, uma galinha, e ela está ali, cuidando da sua vida, fazendo... Sei lá, fazendo o que galinhas costumam fazer. Mas de forma alguma eu diria que estou sendo perseguido. Ao menos não por galinhas.
- O senhor está vendo uma galinha agora?
- Aqui, no consultório? Não, doutor. Aqui não tem galinha nenhuma. Mas tinha uma lá fora, na entrada do prédio.
- Na entrada do prédio. - O médico repetiu bem devagar, batendo com a caneta na palma da mão. - O senhor compreende que estamos bem no centro da cidade, não?
O rapaz sorriu.
- Doutor, se estivéssemos na zona rural e eu visse uma galinha, não teria procurado um médico, não é?
Doutor Gouveia não pareceu achar muita graça do comentário. Terminou uma anotação, empurrou os óculos mais para cima do nariz, fungou uma ou duas vezes e se aprumou para preencher o prontuário.
- Vamos ver… O senhor se chama Tiago Duarte…
- É Yago, com ipsilone.
- Yago. Yago Duarte, tem trinta e três anos. Profissão?
- Eu sou diretor do departamento de compras.
- Sei… - O doutor ia escrevendo, sem olhar para o paciente. - Casado? Filhos?
- Não. Solteiro. Eh, divorciado. Quer dizer, separado. Sem filhos.
- Ahan… O senhor é saudável de uma maneira geral? Sofre de alguma moléstia crônica?
- Não. Um resfriado, de vez em quando, né? Nada sério.
- Sei… E tem passado por algum estresse? Algum evento traumático?
Yago balançou a cabeça.
- Confusão no trabalho… Mas nada, não.
- Oquei… - o doutor esticou o "O" do oquei enquanto empurrava sua cadeira de rodinhas para trás.
- Então, senhor Yago, me conte porque o senhor me procurou.
- Eu vejo galinhas. - Yago respondeu casualmente. O doutor seguia encarando o paciente. Levantou a sobrancelha e franziu a testa, tentando encorajar o rapaz a continuar falando. - Pois é, doutor. É isso. Eu vejo galinhas.
- Como foi, eh… Como foi que isso começou?
- Foi na terça-feira. Eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi um ruído vindo da sala. Eu moro sozinho, eu não tenho bicho em casa, virei para olhar e ali estava ela, uma galinha, assim, desse tamanho. Era só a cara dela, olhando pela porta com o pescoço esticado, me espiando. Assim que eu me virei para a porta, ela saiu correndo.
- Sei… O senhor viu e também ouviu a galinha?
- Ouvi. Vi e ouvi, sim. Levei um baita susto, né? Porque uma galinha assim, na minha casa… Eu moro no segundo andar, lá na Aristides da Costa. Rua movimentada. Uma galinha? Não faz sentido, né? Eu fui atrás dela, que ela correu para a sala. Eu juro para o senhor. Fiquei meia hora procurando a bicha. Quase perdi a hora. Saí sem tomar café.
- Sei… E foi só isso?
- Não, claro que não. Se fosse só isso, bem, eu ia achar que foi confusão da minha cabeça. Acontece, né? Mas não. Eu segui para o trabalho no carro e daí eu parei no sinal. Assim que o sinal abriu eu vi, ali na esquina, uma galinha. Tava lá, correndo de um lado para o outro da rua transversal, que nem na piada.
- Que piada?
- Aquela: por que é que a galinha cruzou a rua?
- Ah. Claro, claro. A piada. Sei.
Ficaram os dois em silêncio. Yago, como se pensando na piada, e o doutor Gouveia esperando ele continuar a história.
- E depois? - O doutor incentivou.
- Depois o que?
- Depois da galinha que o senhor viu no sinaleiro...
- Ah! É. A galinha que cruzou a rua. Fiquei olhando, mas a galinha sumiu. Quis perguntar para o carro do lado se ele também tinha visto. Quer dizer, para o motorista do carro ao lado, que eu não converso com carro… Não sou biruta, ainda, eu acho. Mas aí começaram a buzinar e eu tive que seguir adiante. Doutor, o senhor acha que eu estou louco?
- Senhor Yago, é muito cedo para eu te dar algum diagnóstico preciso. Conte mais. Essa galinha na esquina, foi a última?
- Não! Antes fosse, antes fosse. Foram várias. Teve essa, escute, doutor. Eu ia chegando no escritório, descendo a rampa da garagem do prédio quando eu vi, subindo a rampa em sentido contrário, uma galinha! Nem deu tempo de conter o susto. Gritei para o guardinha, Ô, Antônio! Ô, seu Antônio? Você viu essa galinha?, seu Antônio nem me ouviu. Estava abrindo o portão para a Elizete. Eu acho, doutor, que o seu Antônio tem alguma coisa com a Elizete… - Yago coçou vigorosamente a têmpora e fez uma careta. Daí ficou compenetrado, olhando para um ponto fixo na parede. - Seu Antônio e a Elizete… - Yago voltou à vida e olhou de volta para o doutor. - Bem! Eu passei a manhã distraído, de tal jeito que nem me recuperei direito. E logo depois, doutor, imagine, eu tinha uma reunião de almoço com uns fornecedores do Paraná. Adivinha o que fomos comer?
- Galinha?
Yago olhou para o doutor com estranhamento e as suas sobrancelhas se uniram. Em voz baixa e levantando os ombros respondeu:
- Não doutor. Peixe… Por que é que eu iria comer galinha?
- Eu… eu não sei. Não importa. - Doutor Gouveia sacudiu a cabeça. - Continue.
- Enfim, doutor. Foi eu me sentar na cadeira no restaurante e uma galinha saiu correndo para a cozinha. Garçom! Garçom! Uma galinha, ali, acabou de entrar na cozinha! Eu me levantei e apontei. O garçom ficou me olhando, sem entender o que eu queria dele. Senhor, esse é um restaurante de peixes. Não temos frango. O senhor gostaria de uma salada, talvez? Ele não entendeu, né? Achou que eu estava pedindo para comer uma galinha. Eu ia pedir para entrar na cozinha e procurar o bicho, mas eu estava ali com os fornecedores. Ruim isso, né doutor? Que eu tive que me segurar e sentar na minha cadeira, participar da conversa… Mas eu estava distraído, pensando, tentando entender…
- De onde veio a galinha?
- Não, não. - Yago se irritou. - A questão do Antônio e da Elizete! Que a Elizete é secretária do segundo andar, começou faz poucos meses, e o Antônio é funcionário antigo. Será que tinha alguma coisa ali mesmo? Porque, se tinha, o chefe da logística ia ficar cabreiro. O chefe da logística, o Amílcar, o pessoal espalhou que contratou a Elizete por conta do… da… do… enfim, por conta de elementos extra-profissionais, entende?
O doutor deu um suspiro.
- Houve mais casos em que o senhor viu uma galinha?
- Aconteceu sim, naquele dia mesmo, logo em seguida do almoço. Fui para a sala do chefe. Quando eu ia entrando, saiu dali um cara que era assessor de um deputado estadual. Aí tem, eu pensei, que o tal deputado tava enrolado em um monte de coisa que a gente já tinha ouvido dizer, mas que ninguém tinha provas. Doutor sabe do que eu estou falando, né? Bem, entrei ali, conversar com o chefe sobre o almoço com os fornecedores do Paraná. Eu vi, em cima da mesa, uma pasta que ele estava tentando esconder com a mão, fingindo que não era nada… Mas eu li a palavra Licitação. Vixi! Mas, bem, não tenho nada com isso, né? Só que, daí, assim que eu ia saindo da sala, eu olhei para o lado de fora eu vi!
- A Elizete?
- Não, doutor, a Elizete trabalha em outro andar. Uma galinha! cruzando o corredor na frente da sala do chefe! Eu ainda perguntei pro meu chefe, o senhor viu isso, seu Cláudio?, Isso o que?, A, o, a… deixa para lá. Não é nada não. Tenha um bom dia! Me levantei e saí correndo pegar a bicha! Ô, Siomara, você viu? Passou aqui mesmo!, Do que é que você está falando, Yago? Não vi nada passando aqui, Bem, nada não, Siomara. Desculpa! Desisti e voltei para minha sala.
- Isso que você conta foi… na terça feira, certo? - O médico perguntou enquanto consultava o prontuário.
- Terça-feira. Mas quarta feira foi bem pior.
- Conte, por favor.
Yago esfregou os olhos com as mãos, olhou para um canto do teto por uns segundos enquanto sacudia os dedos como se fosse um pianista pronto para dar o primeiro acorde. Juntou as mãos e voltou a olhar para o médico.
- Ah! Quarta-feira… Eu dormi bem. Nem sonhei, ou não me lembro de ter sonhado. Eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi, de novo, um ruído vindo da sala.
O médico interrompeu:
- Senhor Yago, me diga, o senhor tem a sua rotina bem estabelecida? Costuma fazer as coisas exatamente da mesma maneira, todos os dias?
- Não sei, doutor… Eu tenho lá minhas coisinhas, né? Todo mundo tem. Eu gosto de tomar café de manhã, todas as manhãs. O senhor não?
O doutor Gouveia ignorou a pergunta, anotou alguma coisa no prontuário e pediu para o paciente continuar:
- Então, o senhor dizia que tinha ouvido um barulho vindo da sala. O que aconteceu depois?
- Isso. Um barulho na sala! Já fui pensando se era, ou se não era uma galinha. Eu já tinha me esquecido dessa história... Uma galinha na minha sala… Isso não faz nenhum sentido, né? Mas não. Não ouvi mais nada. Dessa vez eu não parei para procurar por galinha nenhuma. Tomei o meu café e fui para o escritório. Eu juro, doutor, que eu fiquei atento se me aparecia uma galinha no caminho… Mas não apareceu. Estacionei o carro e, lá da garagem eu chamei, o elevador. Estava ali, esperando, me distraí, lembrei de uns papéis que tinha que ter trazido comigo e não tinha certeza se estavam na minha pasta. Abri a pasta, conferi que estavam ali e fechei de novo. Eu não tinha reparado, mas o elevador já tinha chegado e, quando me dei conta, só deu tempo de ver as portas se fechando. E ali dentro, doutor, uma galinha! Eu tentei segurar a porta, enfiar o pé no vão, apertar o botão… Mas lá se foram, a galinha e o elevador.
Yago deu um suspiro, como se tivesse perdido o elevador naquele momento.
- Subi de escada, correndo. No caminho apareceu um colega, o Oviedo. Ele tava com uma cara assustada, ansiosa, eu já ia perguntar se ele por acaso tinha visto uma galinha. Mas ele foi mais rápido e disse: Yago… Você tá subindo para o teu escritório? Eu tava, né? Para onde mais era para eu estar indo àquela hora da manhã? Eu respondi que sim. O Oviedo pensou, pensou e daí resolveu dizer, cochichando: Ó, melhor dar um tempo, Yago. Tá tudo meio complicado lá em cima. Sai, vai até a padaria, faz uma hora por lá… depois volta. Eu até que ia seguir o conselho dele, mas quando eu ia me virar para seguir o Oviedo, eu escuto: cocó! Cocó-có! Meu senhor Jesus Cristo! Eu agora pego a penosa! Subi correndo escada acima seguindo o barulho, fui até o alto do prédio… Mas não vi a galinha, se é que tinha alguma galinha. Eu estava esbaforido, o doutor pode imaginar, né? Eu, assim, meio gordinho, subindo oito andares de escada vestindo camisa, carregando minha maletinha… Quando então, ali na escadaria mesmo, logo ali no andar debaixo, o que eu vejo?
O médico fez uma cara um pouco aparvalhada, levantou as palmas das mãos e tentou:
- A Elizete?
- Não! O auditor da receita federal conversando com o meu chefe! Doutor! Que susto! O Oviedo deve ter visto alguma fuzarca no escritório do chefe, mas quem viu o Cláudio conversando com o auditor fui eu. Aperto de mão, tapinha no ombro, cochicho…
- Senhor Yago, isso tem alguma coisa à ver com o seu problema?
- Tem, tem sim! - E aí Yago soltou tudo, num sopro só, ofegando, como se tivesse acabado de subir os oito andares de escada. - Porque eu ia vendo isso ali no meio lance de escadas abaixo do meu, quando eu vi, logo ali, uma galinha! Doutor, ali, meio lance de escada abaixo de mim! Tava ali a penosa, popó, popopó, ciscando o chão de pedra. Só que eu não podia me mexer. Aliás, se a galinha fizesse muito barulho ia chamar a atenção dos dois ali embaixo, e podia ser que me vissem. Doutor! eu fiquei paralisado, suando bicas, olhando para a galinha a menos de dez degraus de onde eu estava. Popo popo popó. Ela não descia nem subia. Eu olhava para ela e ao mesmo tempo tentava escutar o que os dois conversavam ali em baixo. Nem consegui ouvir tudo direito, mas era maracutaia. Das brabas.
O doutor se levantou, atravessou a sala, encheu um copo d'água do filtro que estava sobre um móvel.
- Tome, Yago. Tente se acalmar.
Bebeu toda água em um gole só. Devolveu o copo para o médico, gesticulando que precisava de outro copo.
- Já trago mais.
O médico trouxe mais dois copos cheios. Yago tomou o primeiro de uma vez só e, mais calmo, tomou o outro aos goles. Secou a testa suada com a manga da camisa e prosseguiu.
- Assim que os dois terminaram de conversar, entraram e bateram a porta atrás deles. A galinha se assustou e saiu meio voando, meio correndo, escadaria abaixo. Eu fui atrás. Doutor, já perseguiu uma galinha escada abaixo? O Senhor tenha misericórdia, doutor, que eu quase caí um par de vezes. E não alcancei o bicho. Cheguei lá em baixo. Nada de galinha. Sumiu de novo.
Com os cotovelos sobre a mesa, Yago apoiou sua testa nas mãos e suspirou com um ar cansado.
- Sumiu de novo a diaba da galinha. E eu fiquei ali no fim da escadaria, lá no estacionamento, parecendo um palerma, suado e bufando. Posso pegar mais um copo d'água?
Se levantou sem esperar resposta. Encheu o copo que tinha na mão, bebeu e repetiu. Antes de sentar-se, disse:
- Enquanto eu tomava fôlego, ainda ali na escadaria, me aparece o Oviedo com uma coxinha e um guardanapo todo engordurado. Você ainda está aqui?! Cara tá uma confusão no segundo andar! Pegaram a Elizete com o Aguinaldo das Finanças. Parece que vão demitir ele. Imagine, doutor… - Yago riu. - Demitir o Aguinaldo das Finanças. O cara é sobrinho do dono da empresa! Iam demitir nada.
Com gestos impacientes o doutor Gouveia parecia tentar puxar a história contada com as mãos:
- Tá… Mais alguma galinha na quarta-feira?
- Não ao longo do dia. E que dia, doutor! Aguinaldo das Finanças pelo jeito ia ser afastado. Ninguém tinha visto o rapaz pelo escritório e o falatório era geral. A Elizete era outra que tinha sumido. Meu chefe ficou o dia fechado na salinha dele e eu almocei um sanduíche com o Oviedo, ver se eu me botava a par das fofocas do escritório. Oviedo é um baita fofoqueiro… Mas galinha, só uma no caminho de volta para casa e outra pulando de uma varanda até a outra no prédio da frente.
- O senhor não achou que já era hora de procurar um médico?
- Não. Eu estava bem. Estava tudo bem. Eu via umas galinhas… E daí?
- Então por que o senhor me procurou hoje?
- Por causa do que aconteceu na quinta.
- Quinta… Ontem, o senhor quer dizer?
- Isso. Ontem.
O médico fechou os olhos, espalmou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e perguntou, bem pausadamente, mal contendo sua irritação:
- Então... o que aconteceu ontem?
- Bem, eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi, de novo, um ruído vindo da sala.
O médico não perguntou nada. Pegou o queixo com a mão, olhando para o paciente por detrás dos óculos. Nem um gesto, nem uma menção para Yago continuar falando.
- Não era nada. - Yago finalmente disse, olhando para o chão. - Quer dizer, eu não vi nada. Não encontrei a galinha. Já estava me acostumando com as galinhas na minha vida. Estivesse ela ali no meu apartamento, ou não, eu já nem ligava, né? Desde que não fizesse cocô no meu tapete, ou no sofá… Bem, então, fui para o escritório. Cheguei no escritório e vi o seu Antônio com uma cara sombria, sério, agitado. Ele que era tão alegre, tão calmo. Aí tem, que eu lembrei da fofoca do dia anterior. Estacionei, subi para o meu andar. Na minha sala não tinha ninguém. Estava tudo vazio. Tinha era uma galinha sentada na minha cadeira. Doutor! Me enfezei. Aí já era demais, né? Aí já era abuso! Na minha cadeira! Me posicionei para emboscar a galinha. Me aproximei dela devagar, com as mãos prontas para agarrar a bicha, quando alguém na porta passa correndo, sem olhar, e avisa: Ó, Yago, Tá um fuzuê lá na recepção! Melhor vir ver! Acho que era o Dogoberto. Quando eu me virei de volta, a galinha já tinha sumido. Deixei minha maletinha em cima da mesa e fui ver o que o Dogoberto queria de mim.
Yago se ajeitou na cadeira e seguiu contando:
- Tava uma galera lá na recepção. Todo mundo ao redor de uma televisão que normalmente fica passando uma apresentação de Power-Point horrorosa. Era um policial federal falando, ou era o juiz? Não, desculpa, minto, era o procurador. Isso. Era o procurador. Ele falava a respeito do tal do deputado estadual, aquele mesmo que tava na sala do meu chefe Cláudio antes. Que o deputado estava sendo indiciado por recebimento de dinheiro, coisa e tal. O José Shmidt gritou lá do fundo da sala que foi o puto, desculpa, doutor, foi o que ele disse, que o puto do Amílcar da Logística que foi quem denunciou o Aguinaldo. A Margarida se meteu, confirmando que foi o Amílcar da Logística mesmo, que o cara ficou todo cheio de ciúmes do Aguinaldo da Finanças que tava arrastando asa para a pobre da Elizete que não era nada mais que uma boa moça, honesta e limpa. A Margarete tem isso de elogiar as pessoas que ela gosta como sendo limpas. O Aguinaldo nem tava ali para se defender, que eu sabia que o rabo-preso da história era meu chefe, que eu vi combinando cambalacho com o fiscal da receita, mas não falei nada. Mas, doutor, olha a situação: todo mundo batendo boca ali na recepção, o juiz ali na televisão falando do deputado… Não, era juíz, né? Era o policial. Isso. Me confundi antes. Era um policial federal. Enfim, o policial federal falando do deputado, a turma dizendo horrores da Elizete, que era limpa mesmo, e eu vi… Doutor, eu vi ali na televisão, atrás do juiz…
- O teu chefe?
- Não! Doutor! Uma galinha! Na televisão! E eu gritei: galinha! E metade da turma, achando que eu tava atacando a Elizete, acho que achando que ela era uma galinha mesmo, começou a gritar junto! Galinha! Daí foi porrada para todo lado, que tinha gente que achava que a Elizete era inocente e não tinha nada que ver, nem com a briga, nem com as maracutaias da chefia. Seu Antônio apareceu depois, chorando, veio avisar que o Cláudio disse que ia sair de férias. E levou a Elizete com ele.
Yago ficou quieto.
Doutor Gouveia tirou os óculos e começou a limpar as lentes com um lenço de papel, contido. Ninguém dizia nada. O doutor, a esse ponto, se recusava a fazer qualquer pergunta. Yago parecia perturbado. Depois que o silêncio pesou, Yago continuou a explicação:
- Pois é doutor… Todo mundo meio consternado, pensando no seu próprio emprego… Eu voltei para minha sala. E foi aí que eu vi, em cima da cadeira, bem onde tinha estado a galinha. Tinha um ovo. Um ovo, doutor. Tá aqui.
Yago se virou, abriu sua mochila, tirou dali de dentro um tupperware com um ovo dentro. Botou em cima da mesa do médico.
- Então, doutor. Pode ser que eu esteja ficando maluco?
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2019.07.04 13:23 gabpac A Inescapável Patologia do Homem que via Galinhas

- Deixe-me entender… O senhor diz que está vendo uma galinha? É isso?
- Isso, doutor. Uma galinha.
- Sei… Uma galinha. Uma só. Poderiam ser mais? - O doutor gesticulava usando só os dedos enquanto perguntava. - Talvez duas ou três?
- Não, não é isso, doutor. É que eu vejo uma galinha. Eu só não tenho certeza se é sempre a mesma, ou se cada vez que eu vejo uma galinha, na verdade, trata-se de outra galinha muito parecida. Eu não tenho muita experiência com galináceos, né? Não sei diferenciar uma galinha de outra. O doutor entenda… eu sempre vivi na cidade…
- Sei… O senhor está sendo perseguido por uma ou mais galinhas, uma de cada vez?
- Perseguido? bem, doutor, eu não diria perseguido. Eu vejo a galinha, digo, uma galinha, e ela está ali, cuidando da sua vida, fazendo... Sei lá, fazendo o que galinhas costumam fazer. Mas de forma alguma eu diria que estou sendo perseguido. Ao menos não por galinhas.
- O senhor está vendo uma galinha agora?
- Aqui, no consultório? Não, doutor. Aqui não tem galinha nenhuma. Mas tinha uma lá fora, na entrada do prédio.
- Na entrada do prédio. - O médico repetiu bem devagar, batendo com a caneta na palma da mão. - O senhor compreende que estamos bem no centro da cidade, não?
O rapaz sorriu.
- Doutor, se estivéssemos na zona rural e eu visse uma galinha, não teria procurado um médico, não é?
Doutor Gouveia não pareceu achar muita graça do comentário. Terminou uma anotação, empurrou os óculos mais para cima do nariz, fungou uma ou duas vezes e se aprumou para preencher o prontuário.
- Vamos ver… O senhor se chama Tiago Duarte…
- É Yago, com ipsilone.
- Yago. Yago Duarte, tem trinta e três anos. Profissão?
- Eu sou diretor do departamento de compras.
- Sei… - O doutor ia escrevendo, sem olhar para o paciente. - Casado? Filhos?
- Não. Solteiro. Eh, divorciado. Quer dizer, separado. Sem filhos.
- Ahan… O senhor é saudável de uma maneira geral? Sofre de alguma moléstia crônica?
- Não. Um resfriado, de vez em quando, né? Nada sério.
- Sei… E tem passado por algum estresse? Algum evento traumático?
Yago balançou a cabeça.
- Confusão no trabalho… Mas nada, não.
- Oquei… - o doutor esticou o "O" do oquei enquanto empurrava sua cadeira de rodinhas para trás.
- Então, senhor Yago, me conte porque o senhor me procurou.
- Eu vejo galinhas. - Yago respondeu casualmente. O doutor seguia encarando o paciente. Levantou a sobrancelha e franziu a testa, tentando encorajar o rapaz a continuar falando. - Pois é, doutor. É isso. Eu vejo galinhas.
- Como foi, eh… Como foi que isso começou?
- Foi na terça-feira. Eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi um ruído vindo da sala. Eu moro sozinho, eu não tenho bicho em casa, virei para olhar e ali estava ela, uma galinha, assim, desse tamanho. Era só a cara dela, olhando pela porta com o pescoço esticado, me espiando. Assim que eu me virei para a porta, ela saiu correndo.
- Sei… O senhor viu e também ouviu a galinha?
- Ouvi. Vi e ouvi, sim. Levei um baita susto, né? Porque uma galinha assim, na minha casa… Eu moro no segundo andar, lá na Aristides da Costa. Rua movimentada. Uma galinha? Não faz sentido, né? Eu fui atrás dela, que ela correu para a sala. Eu juro para o senhor. Fiquei meia hora procurando a bicha. Quase perdi a hora. Saí sem tomar café.
- Sei… E foi só isso?
- Não, claro que não. Se fosse só isso, bem, eu ia achar que foi confusão da minha cabeça. Acontece, né? Mas não. Eu segui para o trabalho no carro e daí eu parei no sinal. Assim que o sinal abriu eu vi, ali na esquina, uma galinha. Tava lá, correndo de um lado para o outro da rua transversal, que nem na piada.
- Que piada?
- Aquela: por que é que a galinha cruzou a rua?
- Ah. Claro, claro. A piada. Sei.
Ficaram os dois em silêncio. Yago, como se pensando na piada, e o doutor Gouveia esperando ele continuar a história.
- E depois? - O doutor incentivou.
- Depois o que?
- Depois da galinha que o senhor viu no sinaleiro...
- Ah! É. A galinha que cruzou a rua. Fiquei olhando, mas a galinha sumiu. Quis perguntar para o carro do lado se ele também tinha visto. Quer dizer, para o motorista do carro ao lado, que eu não converso com carro… Não sou biruta, ainda, eu acho. Mas aí começaram a buzinar e eu tive que seguir adiante. Doutor, o senhor acha que eu estou louco?
- Senhor Yago, é muito cedo para eu te dar algum diagnóstico preciso. Conte mais. Essa galinha na esquina, foi a última?
- Não! Antes fosse, antes fosse. Foram várias. Teve essa, escute, doutor. Eu ia chegando no escritório, descendo a rampa da garagem do prédio quando eu vi, subindo a rampa em sentido contrário, uma galinha! Nem deu tempo de conter o susto. Gritei para o guardinha, Ô, Antônio! Ô, seu Antônio? Você viu essa galinha?, seu Antônio nem me ouviu. Estava abrindo o portão para a Elizete. Eu acho, doutor, que o seu Antônio tem alguma coisa com a Elizete… - Yago coçou vigorosamente a têmpora e fez uma careta. Daí ficou compenetrado, olhando para um ponto fixo na parede. - Seu Antônio e a Elizete… - Yago voltou à vida e olhou de volta para o doutor. - Bem! Eu passei a manhã distraído, de tal jeito que nem me recuperei direito. E logo depois, doutor, imagine, eu tinha uma reunião de almoço com uns fornecedores do Paraná. Adivinha o que fomos comer?
- Galinha?
Yago olhou para o doutor com estranhamento e as suas sobrancelhas se uniram. Em voz baixa e levantando os ombros respondeu:
- Não doutor. Peixe… Por que é que eu iria comer galinha?
- Eu… eu não sei. Não importa. - Doutor Gouveia sacudiu a cabeça. - Continue.
- Enfim, doutor. Foi eu me sentar na cadeira no restaurante e uma galinha saiu correndo para a cozinha. Garçom! Garçom! Uma galinha, ali, acabou de entrar na cozinha! Eu me levantei e apontei. O garçom ficou me olhando, sem entender o que eu queria dele. Senhor, esse é um restaurante de peixes. Não temos frango. O senhor gostaria de uma salada, talvez? Ele não entendeu, né? Achou que eu estava pedindo para comer uma galinha. Eu ia pedir para entrar na cozinha e procurar o bicho, mas eu estava ali com os fornecedores. Ruim isso, né doutor? Que eu tive que me segurar e sentar na minha cadeira, participar da conversa… Mas eu estava distraído, pensando, tentando entender…
- De onde veio a galinha?
- Não, não. - Yago se irritou. - A questão do Antônio e da Elizete! Que a Elizete é secretária do segundo andar, começou faz poucos meses, e o Antônio é funcionário antigo. Será que tinha alguma coisa ali mesmo? Porque, se tinha, o chefe da logística ia ficar cabreiro. O chefe da logística, o Amílcar, o pessoal espalhou que contratou a Elizete por conta do… da… do… enfim, por conta de elementos extra-profissionais, entende?
O doutor deu um suspiro.
- Houve mais casos em que o senhor viu uma galinha?
- Aconteceu sim, naquele dia mesmo, logo em seguida do almoço. Fui para a sala do chefe. Quando eu ia entrando, saiu dali um cara que era assessor de um deputado estadual. Aí tem, eu pensei, que o tal deputado tava enrolado em um monte de coisa que a gente já tinha ouvido dizer, mas que ninguém tinha provas. Doutor sabe do que eu estou falando, né? Bem, entrei ali, conversar com o chefe sobre o almoço com os fornecedores do Paraná. Eu vi, em cima da mesa, uma pasta que ele estava tentando esconder com a mão, fingindo que não era nada… Mas eu li a palavra Licitação. Vixi! Mas, bem, não tenho nada com isso, né? Só que, daí, assim que eu ia saindo da sala, eu olhei para o lado de fora eu vi!
- A Elizete?
- Não, doutor, a Elizete trabalha em outro andar. Uma galinha! cruzando o corredor na frente da sala do chefe! Eu ainda perguntei pro meu chefe, o senhor viu isso, seu Cláudio?, Isso o que?, A, o, a… deixa para lá. Não é nada não. Tenha um bom dia! Me levantei e saí correndo pegar a bicha! Ô, Siomara, você viu? Passou aqui mesmo!, Do que é que você está falando, Yago? Não vi nada passando aqui, Bem, nada não, Siomara. Desculpa! Desisti e voltei para minha sala.
- Isso que você conta foi… na terça feira, certo? - O médico perguntou enquanto consultava o prontuário.
- Terça-feira. Mas quarta feira foi bem pior.
- Conte, por favor.
Yago esfregou os olhos com as mãos, olhou para um canto do teto por uns segundos enquanto sacudia os dedos como se fosse um pianista pronto para dar o primeiro acorde. Juntou as mãos e voltou a olhar para o médico.
- Ah! Quarta-feira… Eu dormi bem. Nem sonhei, ou não me lembro de ter sonhado. Eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi, de novo, um ruído vindo da sala.
O médico interrompeu:
- Senhor Yago, me diga, o senhor tem a sua rotina bem estabelecida? Costuma fazer as coisas exatamente da mesma maneira, todos os dias?
- Não sei, doutor… Eu tenho lá minhas coisinhas, né? Todo mundo tem. Eu gosto de tomar café de manhã, todas as manhãs. O senhor não?
O doutor Gouveia ignorou a pergunta, anotou alguma coisa no prontuário e pediu para o paciente continuar:
- Então, o senhor dizia que tinha ouvido um barulho vindo da sala. O que aconteceu depois?
- Isso. Um barulho na sala! Já fui pensando se era, ou se não era uma galinha. Eu já tinha me esquecido dessa história... Uma galinha na minha sala… Isso não faz nenhum sentido, né? Mas não. Não ouvi mais nada. Dessa vez eu não parei para procurar por galinha nenhuma. Tomei o meu café e fui para o escritório. Eu juro, doutor, que eu fiquei atento se me aparecia uma galinha no caminho… Mas não apareceu. Estacionei o carro e, lá da garagem eu chamei, o elevador. Estava ali, esperando, me distraí, lembrei de uns papéis que tinha que ter trazido comigo e não tinha certeza se estavam na minha pasta. Abri a pasta, conferi que estavam ali e fechei de novo. Eu não tinha reparado, mas o elevador já tinha chegado e, quando me dei conta, só deu tempo de ver as portas se fechando. E ali dentro, doutor, uma galinha! Eu tentei segurar a porta, enfiar o pé no vão, apertar o botão… Mas lá se foram, a galinha e o elevador.
Yago deu um suspiro, como se tivesse perdido o elevador naquele momento.
- Subi de escada, correndo. No caminho apareceu um colega, o Oviedo. Ele tava com uma cara assustada, ansiosa, eu já ia perguntar se ele por acaso tinha visto uma galinha. Mas ele foi mais rápido e disse: Yago… Você tá subindo para o teu escritório? Eu tava, né? Para onde mais era para eu estar indo àquela hora da manhã? Eu respondi que sim. O Oviedo pensou, pensou e daí resolveu dizer, cochichando: Ó, melhor dar um tempo, Yago. Tá tudo meio complicado lá em cima. Sai, vai até a padaria, faz uma hora por lá… depois volta. Eu até que ia seguir o conselho dele, mas quando eu ia me virar para seguir o Oviedo, eu escuto: cocó! Cocó-có! Meu senhor Jesus Cristo! Eu agora pego a penosa! Subi correndo escada acima seguindo o barulho, fui até o alto do prédio… Mas não vi a galinha, se é que tinha alguma galinha. Eu estava esbaforido, o doutor pode imaginar, né? Eu, assim, meio gordinho, subindo oito andares de escada vestindo camisa, carregando minha maletinha… Quando então, ali na escadaria mesmo, logo ali no andar debaixo, o que eu vejo?
O médico fez uma cara um pouco aparvalhada, levantou as palmas das mãos e tentou:
- A Elizete?
- Não! O auditor da receita federal conversando com o meu chefe! Doutor! Que susto! O Oviedo deve ter visto alguma fuzarca no escritório do chefe, mas quem viu o Cláudio conversando com o auditor fui eu. Aperto de mão, tapinha no ombro, cochicho…
- Senhor Yago, isso tem alguma coisa à ver com o seu problema?
- Tem, tem sim! - E aí Yago soltou tudo, num sopro só, ofegando, como se tivesse acabado de subir os oito andares de escada. - Porque eu ia vendo isso ali no meio lance de escadas abaixo do meu, quando eu vi, logo ali, uma galinha! Doutor, ali, meio lance de escada abaixo de mim! Tava ali a penosa, popó, popopó, ciscando o chão de pedra. Só que eu não podia me mexer. Aliás, se a galinha fizesse muito barulho ia chamar a atenção dos dois ali embaixo, e podia ser que me vissem. Doutor! eu fiquei paralisado, suando bicas, olhando para a galinha a menos de dez degraus de onde eu estava. Popo popo popó. Ela não descia nem subia. Eu olhava para ela e ao mesmo tempo tentava escutar o que os dois conversavam ali em baixo. Nem consegui ouvir tudo direito, mas era maracutaia. Das brabas.
O doutor se levantou, atravessou a sala, encheu um copo d'água do filtro que estava sobre um móvel.
- Tome, Yago. Tente se acalmar.
Bebeu toda água em um gole só. Devolveu o copo para o médico, gesticulando que precisava de outro copo.
- Já trago mais.
O médico trouxe mais dois copos cheios. Yago tomou o primeiro de uma vez só e, mais calmo, tomou o outro aos goles. Secou a testa suada com a manga da camisa e prosseguiu.
- Assim que os dois terminaram de conversar, entraram e bateram a porta atrás deles. A galinha se assustou e saiu meio voando, meio correndo, escadaria abaixo. Eu fui atrás. Doutor, já perseguiu uma galinha escada abaixo? O Senhor tenha misericórdia, doutor, que eu quase caí um par de vezes. E não alcancei o bicho. Cheguei lá em baixo. Nada de galinha. Sumiu de novo.
Com os cotovelos sobre a mesa, Yago apoiou sua testa nas mãos e suspirou com um ar cansado.
- Sumiu de novo a diaba da galinha. E eu fiquei ali no fim da escadaria, lá no estacionamento, parecendo um palerma, suado e bufando. Posso pegar mais um copo d'água?
Se levantou sem esperar resposta. Encheu o copo que tinha na mão, bebeu e repetiu. Antes de sentar-se, disse:
- Enquanto eu tomava fôlego, ainda ali na escadaria, me aparece o Oviedo com uma coxinha e um guardanapo todo engordurado. Você ainda está aqui?! Cara tá uma confusão no segundo andar! Pegaram a Elizete com o Aguinaldo das Finanças. Parece que vão demitir ele. Imagine, doutor… - Yago riu. - Demitir o Aguinaldo das Finanças. O cara é sobrinho do dono da empresa! Iam demitir nada.
Com gestos impacientes o doutor Gouveia parecia tentar puxar a história contada com as mãos:
- Tá… Mais alguma galinha na quarta-feira?
- Não ao longo do dia. E que dia, doutor! Aguinaldo das Finanças pelo jeito ia ser afastado. Ninguém tinha visto o rapaz pelo escritório e o falatório era geral. A Elizete era outra que tinha sumido. Meu chefe ficou o dia fechado na salinha dele e eu almocei um sanduíche com o Oviedo, ver se eu me botava a par das fofocas do escritório. Oviedo é um baita fofoqueiro… Mas galinha, só uma no caminho de volta para casa e outra pulando de uma varanda até a outra no prédio da frente.
- O senhor não achou que já era hora de procurar um médico?
- Não. Eu estava bem. Estava tudo bem. Eu via umas galinhas… E daí?
- Então por que o senhor me procurou hoje?
- Por causa do que aconteceu na quinta.
- Quinta… Ontem, o senhor quer dizer?
- Isso. Ontem.
O médico fechou os olhos, espalmou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e perguntou, bem pausadamente, mal contendo sua irritação:
- Então... o que aconteceu ontem?
- Bem, eu acordei cedo para ir ao trabalho. Botei os chinelos no pé e fui até a cozinha para passar um café. Eu ia arrumando a cafeteira, botando água, ajeitando o filtro, quando eu ouvi, de novo, um ruído vindo da sala.
O médico não perguntou nada. Pegou o queixo com a mão, olhando para o paciente por detrás dos óculos. Nem um gesto, nem uma menção para Yago continuar falando.
- Não era nada. - Yago finalmente disse, olhando para o chão. - Quer dizer, eu não vi nada. Não encontrei a galinha. Já estava me acostumando com as galinhas na minha vida. Estivesse ela ali no meu apartamento, ou não, eu já nem ligava, né? Desde que não fizesse cocô no meu tapete, ou no sofá… Bem, então, fui para o escritório. Cheguei no escritório e vi o seu Antônio com uma cara sombria, sério, agitado. Ele que era tão alegre, tão calmo. Aí tem, que eu lembrei da fofoca do dia anterior. Estacionei, subi para o meu andar. Na minha sala não tinha ninguém. Estava tudo vazio. Tinha era uma galinha sentada na minha cadeira. Doutor! Me enfezei. Aí já era demais, né? Aí já era abuso! Na minha cadeira! Me posicionei para emboscar a galinha. Me aproximei dela devagar, com as mãos prontas para agarrar a bicha, quando alguém na porta passa correndo, sem olhar, e avisa: Ó, Yago, Tá um fuzuê lá na recepção! Melhor vir ver! Acho que era o Dogoberto. Quando eu me virei de volta, a galinha já tinha sumido. Deixei minha maletinha em cima da mesa e fui ver o que o Dogoberto queria de mim.
Yago se ajeitou na cadeira e seguiu contando:
- Tava uma galera lá na recepção. Todo mundo ao redor de uma televisão que normalmente fica passando uma apresentação de Power-Point horrorosa. Era um policial federal falando, ou era o juiz? Não, desculpa, minto, era o procurador. Isso. Era o procurador. Ele falava a respeito do tal do deputado estadual, aquele mesmo que tava na sala do meu chefe Cláudio antes. Que o deputado estava sendo indiciado por recebimento de dinheiro, coisa e tal. O José Shmidt gritou lá do fundo da sala que foi o puto, desculpa, doutor, foi o que ele disse, que o puto do Amílcar da Logística que foi quem denunciou o Aguinaldo. A Margarida se meteu, confirmando que foi o Amílcar da Logística mesmo, que o cara ficou todo cheio de ciúmes do Aguinaldo da Finanças que tava arrastando asa para a pobre da Elizete que não era nada mais que uma boa moça, honesta e limpa. A Margarete tem isso de elogiar as pessoas que ela gosta como sendo limpas. O Aguinaldo nem tava ali para se defender, que eu sabia que o rabo-preso da história era meu chefe, que eu vi combinando cambalacho com o fiscal da receita, mas não falei nada. Mas, doutor, olha a situação: todo mundo batendo boca ali na recepção, o juiz ali na televisão falando do deputado… Não, era juíz, né? Era o policial. Isso. Me confundi antes. Era um policial federal. Enfim, o policial federal falando do deputado, a turma dizendo horrores da Elizete, que era limpa mesmo, e eu vi… Doutor, eu vi ali na televisão, atrás do juiz…
- O teu chefe?
- Não! Doutor! Uma galinha! Na televisão! E eu gritei: galinha! E metade da turma, achando que eu tava atacando a Elizete, acho que achando que ela era uma galinha mesmo, começou a gritar junto! Galinha! Daí foi porrada para todo lado, que tinha gente que achava que a Elizete era inocente e não tinha nada que ver, nem com a briga, nem com as maracutaias da chefia. Seu Antônio apareceu depois, chorando, veio avisar que o Cláudio disse que ia sair de férias. E levou a Elizete com ele.
Yago ficou quieto.
Doutor Gouveia tirou os óculos e começou a limpar as lentes com um lenço de papel, contido. Ninguém dizia nada. O doutor, a esse ponto, se recusava a fazer qualquer pergunta. Yago parecia perturbado. Depois que o silêncio pesou, Yago continuou a explicação:
- Pois é doutor… Todo mundo meio consternado, pensando no seu próprio emprego… Eu voltei para minha sala. E foi aí que eu vi, em cima da cadeira, bem onde tinha estado a galinha. Tinha um ovo. Um ovo, doutor. Tá aqui.
Yago se virou, abriu sua mochila, tirou dali de dentro um tupperware com um ovo dentro. Botou em cima da mesa do médico.
- Então, doutor. Pode ser que eu esteja ficando maluco?
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